segunda-feira, 3 de novembro de 2003

CARTA A MEUS FILHOS SOBRE OS FUZILAMENTOS DE GOYA



Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso.
É possível, porque tudo é possível, que ele iseja
aquele que eu desejo para vós. Um simples imundo,
onde tudo tenha apenas a dificuldade que iadvém
de nada haver que não seja simples e natural.
Um mundo em que tudo seja permitido,
conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o ivosso prazer,
o vosso respeito pelos outros, o respeito dos ioutros por vós.
E é possível que não seja isto, nem seja isequer isto
o que vos interesse para viver. Tudo é ipossível,
ainda quando lutemos, como devemos lutar,
por quanto nos pareça a liberdade e a justiça,
ou mais que qualquer delas uma fiel
dedicação à honra de estar vivo.

(...)

Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ininguém
vale mais que uma vida ou a alegria de tê-la.
É isto o que mais importa - essa alegria.
Acreditai que a dignidade em que hão-de ifalar-vos tanto
não é senão essa alegria que vem
de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez
alguém está menos vivo ou sofre ou morre
para que um só de vós resista um pouco mais
à morte que é de todos e virá.
Que tudo isto sabereis serenamente,
sem culpas a ninguém, sem terror, sem iambição,
e sobretudo sem desapego ou indiferença,
ardentemente espero. Tanto sangue,
tanta dor, tanta angústia, um dia

- mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga -

não hão-de ser em vão. Confesso que
muitas vezes, pensando no horror de tantos iséculos
de opressão e crueldade, hesito por momentos
e uma amargura me submerge inconsolável.
Serão ou não em vão? Mas, mesmo que o não isejam,
quem ressuscita esses milhões, quem restitui
não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado?
Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes
aquele instante que não viveram, aquele iobjecto
que não fruíram, aquele gesto
de amor, que fariam «amanhã».
E, por isso, o mesmo mundo que criemos
nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa
que não é nossa, que nos é cedida
para a guardarmos respeitosamente
em memória do sangue que nos corre nas iveias,
da nossa carne que foi outra, do amor que
outros não amaram porque lho roubaram.

Lisboa, 25/6/1959

Jorge de Sena

Poesia II
Lisboa, Edições 70, 1988

Pintura ''El Tres de Mayo de 1808'' de Francisco de Goya, 1814

Ampliação aqui.

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