terça-feira, 4 de maio de 2004

JOSÉ GOMES FERREIRA

O GENERAL
("Depois de fortemente bombardeada, a cidade X foi ocupada pelas nossas tropas.")



O general entrou na cidade
ao som de cornetas e tambores ...



Mas por que não há "vivas"
nem flores?



Onde está a multidão
para o aplaudir, em filas na rua?



E este silêncio
Caiu de alguma cidade da Lua?




Só mortos por toda a parte.




Mortos nas árvores e nas telhas,
nas pedras e nas grades,
nos muros e nos canos ...



Mortos a enfeitarem as varandas
de colchas sangrentas
com franjas de mãos ...



Mortos nas goteiras.
Mortos nas nuvens.
Mortos no Sol.



E prédios cobertos de mortos.
E o céu forrado de pele de mortos.
E o universo todo a desabar cadáveres.



Mortos, mortos, mortos, mortos ...



Eh! levantai-vos das sarjetas
e vinde aplaudir o general
que entrou agora mesmo na cidade,
ao som de tambores e de cornetas!



Levantai-vos!



É preciso continuar a fingir vida,
E, para multidão, para dar palmas,
até os mortos servem,
sem o peso das almas.



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VIVER SEMPRE TAMBÉM CANSA

Viver sempre também cansa.
O sol é sempre o mesmo e o céu azul
ora é azul, nitidamente azul,
ora é cinzento negro, quase-verde...
Mas nunca tem a cor inesperada.

O mundo não se modifica.
As árvores dão flores,
folhas, frutos e pássaros
como máquinas verdes.

As paisagens também não se transformam.
Não cai neve vermelha,
não há flores que voem,
a lua não tem olhos
e ninguém vai pintar olhos à lua.

Tudo é igual, mecânico e exacto.

Ainda por cima os homens são os homens
soluçam, bebem, riem e digerem
sem imaginação.

E há bairros miseráveis, sempre os mesmos,
discursos de Mussolini,
guerras, orgulhos em transe,
automóveis de corrida...

E obrigam-me a viver até à Morte!

Pois não era mais humano
morrer por um bocadinho,
de vez em quando,
e recomeçar depois,
achando tudo mais novo?

Ah! se eu pudesse suicidar-me por seis meses,
morrer em cima de um divã
com a cabeça sobre uma almofada,
confiante e sereno por saber
que tu velavas, meu amor do Norte.

Quando viessem perguntar por mim
havias de dizer com teu sorriso
onde arde um coração em melodia:
''Matou-se esta manhã.
Agora não o vou ressuscitar
por uma bagatela.''

E virias depois, suavemente
velar por mim, subtil e cuidadosa,
pé ante pé, não fosses acordar
a Morte ainda menina no meu colo...

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