Manucure Na sensação de estar polindo as minhas unhas,
Súbita sensação inexplicável de ternura,
Todo me incluo em Mim – piedosamente.
Entanto eis-me sozinho no Café:
De manhã, como sempre, em bocejos amarelos.
De volta, as mesas apenas – ingratas
E duras, esquinadas na sua desgraciosidade
Boçal, quadrangular e livre-pensadora...
Fora: dia de Maio em luz
E sol – dia brutal, provinciano e democrático
Que os meus olhos delicados, refinados, esguios e citadinos
Não podem tolerar – e apenas forçados
Suportam em náuseas. Toda a minha sensibilidade
Se ofende com este dia que há-de ter cantores
Entre os amigos com quem ando às vezes –
Trigueiros, naturais, de bigodes fartos –
Que escrevem, mas têm partido político
E assistem a congressos republicanos,
Vão às mulheres, gostam de vinho tinto,
De peros ou de sardinhas fritas...
(..)
Leia o
poema completo na
Biblioteca AdC.
Finalmente um dos poemas mais geniais do Século XX chega ao
Abaixo de Cão.
Trata-se de "Manucure" de
Mário de Sá-Carneiro publicado em 1915 e cujos efeitos tipográficos tentei reproduzir o mais fielmente possível. Recorri a várias fontes na Internet e não me venham falar em direitos de autor pois toda a obra do poeta se encontra no Domínio Público.