terça-feira, 30 de novembro de 2010

HOJE PESSOA, OBVIAMENTE


Fernando Pessoa Stencil in Bairro Alto, Lisboa

"Lisboa com suas casas"

Lisboa com suas casas
De várias cores,
Lisboa com suas casas
De várias cores,
Lisboa com suas casas
De várias cores…
À força de diferente, isto é monótono,
Como à força de sentir, isto é monótono,
Como à força de sentir, fico só a pensar.

Se, de noite, deitado mas desperto
Na lucidez inútil de não poder dormir,
Quero imaginar qualquer coisa
E surge sempre outra (porque há sono,
E, porque há sono, um bocado de sonho),
Quero alongar a vista com que imagino
Por grandes palmares fantásticos,
Mas não vejo mais,
Contra uma espécie de lado de dentro de pálpebras,
Que Lisboa com suas casas
De várias cores.

Sorrio, porque, aqui, deitado, é outra coisa.
À força de monótono, é diferente.
E, à força de ser eu, durmo e esqueço que existo.
Fica só, sem mim, que esqueci porque durmo,
Lisboa com suas casas
De várias cores.

Álvaro de Campos
10 - 5 - 1934


XXVIII

Li hoje quase duas páginas
Do livro dum poeta místico,
E ri como quem tem chorado muito.

Os poetas místicos são filósofos doentes,
E os filósofos são homens doidos.

Porque os poetas místicos dizem que as flores sentem
E dizem que as pedras têm alma
E que os rios têm êxtases ao luar.

Mas flores, se sentissem, não eram flores,
Eram gente;
E se as pedras tivessem alma, eram cousas vivas, não eram pedras;
E se os rios tivessem êxtases ao luar,
Os rios seriam homens doentes.

É preciso não saber o que são flores e pedras e rios
Para falar dos sentimentos deles.
Falar da alma das pedras, das flores, dos rios,
É falar de si próprio e dos seus falsos pensamentos.
Graças a Deus que as pedras são só pedras,
E que os rios não são senão rios,
E que as flores são apenas flores.

Por mim, escrevo a prosa dos meus versos
E fico contente,
Porque sei que compreendo a Natureza por fora;
E não a compreendo por dentro
Porque a Natureza não tem dentro;
Senão não era a Natureza.

Alberto Caeiro
In O Guardador de Rebanhos

Quando se completam 75 anos sobre a data do desaparecimento físico de Fernando Pessoa...

terça-feira, 9 de novembro de 2010

CLEARLY NON-CAMPOS!

CLEARLY NON-CAMPOS!

Não sei qual é o sentimento, ainda inexpresso,
Que subitamente, como uma sufocação, me aflige
O coração que, de repente,
Entre o que vive, se esquece.
Não sei qual é o sentimento
Que me desvia do caminho,
Que me dá de repente
Um nojo daquilo que seguia,
Uma vontade de nunca chegar a casa,
Um desejo de indefinido,
Um desejo lúcido de indefinido.


s.d.
Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

COLORGRAPHIA LXXVIII - A FRÁGIL ETERNIDADE


Nefertari sendo conduzida pela deusa Isis, c. 1254 AC. Pintura do muro norte do Recesso E, Túmulo QV 66 do Vale das Rainhas.

Evocando quem atingiu a eternidade, não pelos (mortais) deuses, mas pela Arte...

sábado, 23 de outubro de 2010

PHOTOGRAPHIA XXXVIII


Café, Avenue de la Grande-Armée, Paris 1924-25.


Le Perreux - Tour de Marne, Paris 1903.

Mais dois geniais "documentos" de Eugène Atget.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

VIVER AMANHÃ POR TER ADIADO HOJE?

PARAGEM. ZONA

Tragam-me esquecimento em travessas!
Quero comer o abandono da vida!
Quero perder o hábito de gritar para dentro.
Arre, já basta! Não sei o quê, mas já basta…
Então viver amanhã, hein?... E o que se faz de hoje?
Viver amanhã por ter adiado hoje?
Comprei por acaso um bilhete para esse espectáculo?
Que gargalhadas daria quem pudesse rir!
E agora aparece o eléctrico — o de que eu estou à espera —
Antes fosse outro… Ter de subir já!
Ninguém me obriga, mas deixá-lo passar porquê?
Só deixando passar todos, e a mim mesmo, e à vida…
Que náusea no estômago real que é a alma consciente!
Que sono bom o ser outra pessoa qualquer…
Já compreendo porque é que as crianças querem ser guarda-freios…
Não, não compreendo nada…
Tarde de azul e ouro, alegria das gentes, olhos claros da vida…

Álvaro de Campos 28 - 5 - 1930

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

MÚSICA EM LIBERDADE

  Dances and Suites of Rameau and Couperin by American Baroque

A mágica elegância, a barroca alegria, a saborosa melancolia de Jean-Philippe Rameu e de François Couperin no Dia Mundial da Música. Uma interpretação dos American Baroque publicada pela Editora Magnatune. A virtuosidade do Grand Siècle, a liberdade da Creative Commons.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

COLORGRAPHIA LXXVII - FAÇA CHUVA OU FAÇA SOL


Terrasse du café le soir, Place du forum, Arles óleo sobre tela de Vincent van Gogh, 1888.


Rue de Paris, temps de pluie óleo sobre tela de Gustave Caillebotte, 1877.

No ultimo dia de Verão duas das minhas pinturas favoritas, para recordar os leitores que aqui poderão sempre "lavar a vista" em qualquer estação do ano.

Cliquem nas imagens para ver as ampliações que vale mesmo a pena.

sábado, 18 de setembro de 2010

PHOTOGRAPHIA XXXVII - O INFERNO E O PARAÍSO


L’Enfer, cabaret, 53 boulevard de Clichy (O Inferno, cabaré, Boulevard de Clichy 53 - Paris) 1898.


Ruines de l'Abbaye des Lys (Ruínas da Abadia de Lys) 1910.

O involuntário pai da fotografia moderna, Eugène Atget, regressa a este blogue.

Poderão os leitores perguntar: porquê um Inferno tão convidativo e um Paraíso em ruínas? Porque para o primeiro se vai pela companhia, para o segundo só pelo clima...

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

SOBRE OS COMENTÁRIOS NESTE BLOGUE

Não ganho dinheiro com este blogue, nem com publicidade nem recorrendo a outros meios. A única recompensa que tenho são os comentários, seja qual for o seu conteúdo, porém o Spam nunca será bem-vindo. Tendo sofrido um ataque cerrado vejo-me obrigado a colocar a "verificação de palavras" (CAPTCHA). Espero que tal medida não desanime ainda mais os leitores.

Nas entradas mais antigas não estranhe ver sempre zero comentários, depois da morte do Haloscan ficaram perdidos mais de 6 anos de opiniões...

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

UMBIGO

Tive a ideia de pedir aos leitores para seleccionarem a postagem menos má de cada ano, mas perante sua crónica timidez resolvi recorrer a alguém do "mundo real" (obrigado Vera e já agora muitos parabéns), aqui fica então a lista:

2003 Manias Minhas
2004 Conta-Corrente
2005 En Bôn Purtuguês nus Understandêmos II
2006 Colorgraphia XLVII - Monet
2007 Colorgraphia LIX - Pisanello
2008 Free, as in "Free Beer"
2009 Tempos Difíceis - As cores da América
2010 COLORGRAPHIA LXXII (too obvious for today, I know...)

Entretanto não se esqueça da página no Facebook, se tem conta nesta rede (não aconselho, mas se já está, já está) "goste" do AdC, já 9 pessoas o fizeram e ao fim 25 pode-se escolher o endereço sem aqueles números todos.

O "Abaixo de Cão" marca também presença no YouTube, no Twitter, no Dailymotion, no Vimeo, possui uma biblioteca, publicou uma História da Música com vídeos do Youtube e tem um endereço centralizado em abaixodecao.web.pt.
Clique em "Mensagens antigas" para ler mais artigos fantásticos do Arquivo.

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