sexta-feira, 31 de março de 2006

AO PESSOAL DA MÚSICA "ANTIGA"

Porque carga d'água não consigo eu encontrar gravações de jeito das obras de Chopin em fortepianos da época?

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Arquivado em: "Grande Música"
LISBON REVISITED, AGAIN

Lisbon revisited (1926)

Nada me prende a nada.
Quero cinquenta coisas ao mesmo tempo.
Anseio com uma angústia de fome de carne
O que não sei que seja -
Definidamente pelo indefinido...
Durmo irrequieto, e vivo num sonhar irrequieto
De quem dorme irrequieto, metade a sonhar.

Fecharam-me todas as portas abstractas e necessárias.
Correram cortinas de todas as hipóteses que eu poderia ver da rua.
Não há na travessa achada o número da porta que me deram.

Acordei para a mesma vida para que tinha adormecido.
Até os meus exércitos sonhados sofreram derrota.
Até os meus sonhos se sentiram falsos ao serem sonhados.
Até a vida só desejada me farta - até essa vida...

Compreendo a intervalos desconexos;
Escrevo por lapsos de cansaço;
E um tédio que é até do tédio arroja-me à praia.
Não sei que destino ou futuro compete à minha angústia sem leme;
Não sei que ilhas do sul impossível aguardam-me naufrago;
ou que palmares de literatura me darão ao menos um verso.

Não, não sei isto, nem outra coisa, nem coisa nenhuma...
E, no fundo do meu espírito, onde sonho o que sonhei,
Nos campos últimos da alma, onde memoro sem causa
(E o passado é uma névoa natural de lágrimas falsas),
Nas estradas e atalhos das florestas longínquas
Onde supus o meu ser,
Fogem desmantelados, últimos restos
Da ilusão final,
Os meus exércitos sonhados, derrotados sem ter sido,
As minhas cortes por existir, esfaceladas em Deus.

Outra vez te revejo,
Cidade da minha infância pavorosamente perdida...
Cidade triste e alegre, outra vez sonho aqui...

Eu? Mas sou eu o mesmo que aqui vivi, e aqui voltei,
E aqui tornei a voltar, e a voltar.
E aqui de novo tornei a voltar?
Ou somos todos os Eu que estive aqui ou estiveram,
Uma série de contas-entes ligados por um fio-memória,
Uma série de sonhos de mim de alguém de fora de mim?

Outra vez te revejo,
Com o coração mais longínquo, a alma menos minha.

Outra vez te revejo - Lisboa e Tejo e tudo -,
Transeunte inútil de ti e de mim,
Estrangeiro aqui como em toda a parte,
Casual na vida como na alma,
Fantasma a errar em salas de recordações,
Ao ruído dos ratos e das tábuas que rangem
No castelo maldito de ter que viver...

Outra vez te revejo,
Sombra que passa através das sombras, e brilha
Um momento a uma luz fúnebre desconhecida,
E entra na noite como um rastro de barco se perde
Na água que deixa de se ouvir...

Outra vez te revejo,
Mas, ai, a mim não me revejo!
Partiu-se o espelho mágico em que me revia idêntico,
E em cada fragmento fatídico vejo só um bocado de mim -
Um bocado de ti e de mim!...

Álvaro de Campos

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Arquivado em: Poesia

segunda-feira, 27 de março de 2006

SERVIÇO PÚBLICO

Acabo de ver na Dois um programa para crianças e jovens chamado "Quiosque" onde se apresentou um jogo chamado "O Padrinho". Para meu espanto foi transmitido um excerto em que uma personagem metralha todos os inimigos e produz rios de sangue!
Nada mau para uma estação que se gaba de ser a única a quem se pode confiar os mais novos...

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Arquivado em: "Media" (tv)
PESSOA, PORQUE ME APETECE

Lisbon Revisited (1923)

Não: Não quero nada.
Já disse que não quero nada.

Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.

Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!
Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) -
Das ciências, das artes, da civilização moderna!

Que mal fiz eu aos deuses todos?

Se têm a verdade, guardem-na!

Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?

Não me macem, por amor de Deus!

Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?

Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja da companhia!

Ó céu azul - o mesmo da minha infância -
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflecte!
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.

Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo...
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho

Álvaro de Campos, 1923.

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Arquivado em: Poesia

quarta-feira, 22 de março de 2006

DEDICADO A FUMADORES ENGRAÇADINHOS

Exercendo o meu direito de resposta aqui vai uma posta dedicada à Cat:



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Arquivado em: Resmunguices

terça-feira, 21 de março de 2006

POESIA, POETAS, DIA, O'NEIL, MUNDIAL, SARCASMO E OUTRAS COISAS QUE TAIS

"PERICLITAM OS GRILOS"

Periclitam os grilos:
a noite é nada.
Quem tem filhos tem cadilhos.
(Que quadra tão bem rimada!)

Não espere, leitor, que eu diga:
«Debaixo daquela arcada...»
Não venho fazer intriga:
versejo só - e mais nada.

Assim o terceiro verso
desta tirada
(reparou que é um provérbio?)
não significa nada.

Se a noite é nada e os grilos
não estão de asa parada,
não vou puxar, só por isso,
o fio à sua meada,

leitor que me pede a história
que já trás engatilhada,
leitor que não se habitua
a que não aconteça nada

em poesia que comece
como esta foi começada
e acabe como esta
vai ser agora acabada...

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SENTENÇAS DELIRANTES DUM POETA PARA SI PRÓPRIO EM TEMPO DE CABEÇAS PENSANTES

1
Não te ataques com os atacadores dos outros.

Deixa a cada sapato a sua marcha e a sua direcção.
O mesmo deves fazer com os açaimos.

E com os botões.

2
Não te candidates, nem te demitas. Assiste.
Mas não penses que vais rir impunemente a sessão inteira.
Em todo o caso fica o mais perto possível da coxia.

3
Tira as rodas ao peixe congelado,
mas sempre na tua mão.

Depois, faz um berreiro.
Quando tiveres bastante gente à tua volta,
descongela a posta e oferece um bocado a cada um.

4
Não te arrimes tanto à ideia de que haverá sempre
um caixote com serradura à tua espera.
Pode haver. Se houver, melhor...

Esta deve ser a tua filosofia.

5
Tudo tem os seus trâmites, meu filho!
Não faças brincos de cerejas
sem te darem, primeiro, as orelhas.

Era bom que esta fosse, de facto, a tua filosofia.

6
Perguntas-me o que deves fazer com a pedra que
te puseram em cima da cabeça?
Não penses no que fazer com. Cuida no que fazer da.

É provável que te sintas logo muito melhor.

Sai, então, de baixo da pedra.

7
Onde houver obras públicas não deponhas a tua obra.
Poderias atrapalhar os trabalhos.
Os de pedra sobre pedra, entenda-se.

Mas dá sempre um «Bom dia!» ao pessoal do estaleiro.
Uma palavra é, às vezes, a melhor argamassa.

8
Deves praticar os jogos de palavras, mas sempre
com a modéstia do cientista que enxertou em si mesmo
a perna da rã, e que enquanto não coaxa, coxeia.
Oxalá o consigas!

9
Tens um glorioso passado futurível,
mas não fiques de colher suspensa,
que a sopa arrefece.

10
Se tiveres de arranjar um nome para uma personagem
de tua criação, nunca escolhas o de Fradique Mendes.
A criação literária não frequenta o guarda-roupa,
muito menos quando a roupa tem gente dentro.

11
Resume todas estas sentenças delirantes numa única
sentença:
Um escritor deve poder mostrar sempre a língua portuguesa.

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"APROVEITANDO UMA ABERTA"

«Ó virgens que passais ao sol-poente»
com esses filhos-familia
pensai, primeiro, na mobilia,
que é mais prudente.

Sim, que essa qualidade,
tão bem reconstituída,
nem sempre, revirgens, há-de
proporcionar-vos a vida

que levais.
Se um tolo nunca vem só,
qundo não vem, não vem mais
ou vem, digamos, por dó...

E o dó dói como um soco,
até mesmo quando parte
de um tolo que a vossa arte
promoveu de tolo a louco.

Eu quando digo mobília,
digo lar, digo família
e aquela espiada fresta,
aberta, patente, honesta,

retrato oval da virtude,
consoladora do triste,
remanso, beatitude
para o colérico em riste.

Assim, sim, virgens sensatas!
(Nos telhados só as gatas...)
Pensai antes na mobília,
honestas mães de família,
e aceitai respeitos mil
do vosso

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"QUE VERGONHA RAPAZES"

Que vergonha rapazes! Nós pràqui,
caídos na cerveja ou no uísque,
a enrolar a conversa no «diz que»
e a desnalgar a fêmea («Vist'? Viii!»)

Que miséria, meus filhos! Tão sem jeito
é esta videirunha à portuguesa,
que às vezes me soergo no meu leito
e vejo entrar a quarta invasão francesa.

Desejo recalcado, com certeza...
Mas logo desço à rua, encontro o Roque
(«O Roque abre-lhe a porta, nunca toque!»)
e desabafo: - Ó Roque, com franqueza:

Você nunca quis ver outros países?
- Bem queria, Sr O'Neill! E...as varizes?

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"DIVERTIMENTO COM SINAIS ORTOGRÁFICOS"

...
Em aberto, em suspenso
Fica tudo o que digo.
E também o que faço é reticente...
:
Introduzimos, por vezes,
Frases nada agradáveis...
.
Depois de mim maiúscula
Ou espaço em branco
Contra o qual defendo os textos
,
Quando estou mal disposta
(E estou-o muitas vezes...)
Mudo o sentido às frases,
Complico tudo...
!
Não abuses de mim!
?
Serás capaz de responder a tudo o que pergunto?
( )
Quem nos dera bem juntos
Sem grandes apartes metidos entre nós!
^
Dou guarida e afecto
A vogal que procure um tecto.

Alexandre O'Neil

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Arquivado em: Poesia

segunda-feira, 20 de março de 2006

DISCOGRAPHIA VIII - DISCOS ESSENCIAIS
"Landini e i Suoi Contemporanei" Ensemble Micrologus


O Nuno d'A Forma do Jazz teve a excelente ideia de postar sobre os discos essenciais da arte jazzística, como não encontrei nada parecido no que à música clássica diz respeito decidi deitar mãos à obra, apesar de não ter qualificações suficientes para tal tarefa...
Inicia-se então tal série com um disco de música "fresca" e "primaveril" que estava esquecido ali na prateleira. Trata-se do excelente "Landini e i suoi contemporanei", uma compilação de composições da "Ars Nova" florentina (séc. XIV) período em que se destacou Francesco Landini. A interpretação do Ensemble Micrologus consegue dar vida a obras com sete séculos, algo que em Arte não é nada fácil.

Como o CD (de 1994) é virtualmente impossível de encontrar publicarei pequeníssimos excertos sonoros, mas só logo ou amanhã que agora tenho de ir dormir.

Actualização 21/3/06

Conforme prometido publico excertos de: Saltarello de autor anónimo;
"Ochi dolenti mie" de Landini e "De poni amor a me" de Gherardello de Florentina.

PS: Como o sr. David Ferreira anda com manias policiais (provavelmente o seu sonho de criança era ser agente da Judiciária) devo informar que os pedaços de faixas do disco aqui revelados têm apenas um fim educativo; suspeito é que esse senhor e seus pares estranhem ler "educativo" e "música" no mesmo texto.

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Arquivado em: "Grande Música"

quarta-feira, 15 de março de 2006

UMBIGUISMO

Recebi hoje uma visita através do Google de alguém pesquisando
links relacionados com o Abrupto, listinha tão pequena! De qualquer modo constando nela o AdC sempre aumenta o número no contador de visitas (coisa completamente irrelevante, verdade se diga).

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Arquivado em: "Blogosfera"

terça-feira, 14 de março de 2006

GOOGLE MARS

Google Earth? Google Moon? Não, o que está a dar é o Google Mars.
A propósito, para quando o Google Universe?

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Arquivado em: Internet e Computadores: Sítios Úteis (?)

quarta-feira, 8 de março de 2006

COLORGRAPHIA XXXIX

No Dia Internacional da Mulher vem a propósito evocar a grande Frida Kahlo.
O "Abaixo de Cão" recomenda uma visita ao CCB para comprender plenamente a obra da pintora mexicana.
Perder esta exposição é um crime!


Coluna Partida, 1944.


"Henry Ford Hospital", 1932.


"Unos Cuantos Piquetitos!", 1935.

Três quadros que só fazem sentido depois de se conhecer as suas histórias, gaste 5 euros no bilhete e descubra-as...

Clique na imagens para ver as ampliações.

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Arquivado em: "Pintura"

terça-feira, 7 de março de 2006

OLHE, FAXAVOR

Pode dizer-me porque é que tem o linque para comentários e depois um gajo não pode comentar?
Outra coisinha, é feio apanhar uma pessoa à traição e postar seis postas sem aviso prévio.

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Arquivado em: "Blogosfera"

quarta-feira, 1 de março de 2006

VERGÍLIO FERREIRA

Dez anos depois da sua morte Vergílio Ferreira parece estar esquecido pelos "donos da cultura", talvez porque "...somos um país de analfabetos; destes alguns não sabem ler."
Porém, para a manter a obra vergiliana viva basta ler e sentir (todos) os seus livros...

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Arquivado em: Literatura
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